Brincar é Coisa Séria
“É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação.” (Winnicott)
Constantemente nos deparamos com pais que ignoram a importância do brincar para o desenvolvimento físico e psíquico de seus filhos, ignorando que este possibilita processos de socialização e de descoberta do mundo. Também encontramos pais que consideram a brincadeira como um momento para entreter a criança. Temos observado que, ao longo dos tempos, o ato de brincar está relegado a um simples passatempo desprovido de qualquer outra função que não apenas a de ocupar as crianças em “coisas” divertidas.
Pelo brincar, ou seja, no simbólico jogo da brincadeira, a criança irá entender o mundo ao redor, testar habilidades físicas como correr, saltar; sociais como ser arquiteta, engenheiro, enfermeiro, professora; aprender as regras e limites e com isso favorecer o entendimento do lado positivo e negativo de suas ações, como ganhar, perder, cair. Brincar é criar, partir para a ação, é descobrir valores, aprender a conviver, trabalhar a auto-estima, a autonomia e a participação.
É claro e notório que as crianças que não tem a oportunidade de brincar ou com quem os pais raramente brincam sofrem bloqueios e/ou rupturas em seus processos de desenvolvimento.
De quando éramos crianças até os dias de hoje temos presenciado a mudanças nos padrões do que é oferecido às crianças em relação ao ato de brincar. Uma vez ouvi de uma pessoa da área da educação: “Tem-se certeza da qualidade de uma escola pelo tempo que esta disponibiliza para o recreio”. Na vida escolar e no cotidiano das crianças é desprendido cada vez menos tempo para a brincadeira. Os brinquedos industrializados, os celulares, a televisão, o shopping e o computador ficaram mais importantes que as brincadeiras baseadas na criatividade, no ter que construir juntos, que certamente implicam em qualidade das interações sociais.
Tenho pena das crianças que são privadas do direito de brincar. As formas de usar e ocupar o solo urbano, a expansão da violência e as alterações nas relações sociais reduziram o espaço físico disponível para as crianças, e aqui me reporto especialmente às crianças que moram em cidades de maior porte que muitas vezes em nome da rotina acelerada dos pais esquecem de olhar suas crianças com os olhos da alma.
Mostro aqui uma versão bem resumida da Declaração Universal dos Direitos da Criança e mais à frente explico o porque:
1) Toda criança tem seus direitos garantidos, independentes de raça, cor, sexo, religião, etc.;
2) Toda criança tem direito à proteção especial e ao desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social;
3) Toda criança tem direito a um nome e uma nacionalidade desde seu nascimento;
4) Toda criança tem direito a crescer e viver com saúde;
5) Toda criança que tiver alguma incapacidade física ou mental tem direito a tratamento e cuidados especiais;
6) Toda criança deverá ser criada em um ambiente de amor e compreensão;
7) Toda criança tem direito à educação gratuita;
8) Toda criança tem direito a ser socorrida em primeiro lugar;
9) Toda criança tem direito à proteção contra violência e exploração;
10) Toda criança tem direito à proteção contra atos de discriminação racial, religiosa ou de outra forma.
Acho que deveríamos criar o décimo primeiro direito que seria: Toda criança tem direito ao ócio infantil, talvez assim as crianças tivessem o direito de ter momentos não programados pelos adultos. Faço referência especial às crianças que têm seu tempo preenchido por adultos que pensam entender o que é melhor para elas sem nem ao menos ouvi-las: além das aulas na educação formal, aulas de natação, inglês, judô, futebol, preparação de tarefas escolares entre outros. Com agendas que mais parecem de um adulto as crianças muitas vezes têm dificuldade de administrar o tempo e veja que as atividades não são só físicas, são também intelectuais e nós adultos nos vestimos de profetas e tentamos adivinhar aquilo que é melhor para elas.
A maior conseqüência do “não brincar” é o amadurecimento precoce, levando essas crianças a assumirem um papel de adultos, quando deveriam ser apenas crianças. A sobrecarga de atividades pode inclusive prejudicar o seu desenvolvimento. Observe que cada criança tem uma forma de ver o mundo, tem seu ritmo de vida. Nós precisamos apenas e não mais que isso orientá-las e não obrigá-las a fazer aquilo que nós queremos
Cada vez mais me convenço que é de responsabilidade da família sentar-se com seus filhos e brincar, definir junto com as crianças as regras e horários para as atividades e para brincar; desta forma não sobrecarregam as crianças e darão sua memorável contribuição no desenvolvimento destas.
Posto de Puericultura Suzanne Jacob
Filomena Santos - Gerente de Programas
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